quarta-feira, 20 de junho de 2012


     És extraordinariamente diferente do que eu sou: a tua pele e olhos claros, os teus cabelos reluzentes, a tua barriga magra, os teus ossos, os teus pés trabalhados pela Deusa da Dança, a tua maneira de andar marcada pela cicatrizes internas de um passado interrompido, mas nunca esquecido... És tudo aquilo com que eu sonho ser.
         Acordas de manhã e, apesar de todas as doenças que comem o teu corpo, sabes que podes ser feliz, podes dar sempre "um pezinho de dança". A nossa doença, meu amor, une-nos pela graça da dança; mas na verdade, tu bem sabes que a nossa doença é a nossa dança; criatura graciosa e divina que te oferece tanta felicidade e razões para viver, mas que em mim só deixa saudade e cólera, e lágrimas.
       Danço por mim, para o meu espelho embaciado, e sabe tão bem; mas não me consigo sentir completa, não me sinto realizada. Nunca me sinto preenchida, tu, "a minha igual", e a dança levaram com vocês dois pedaços de mim, que desconfio serem os pedaços que me mantinham viva e desperta para o mundo.
       Nada posso fazer. Agora sobrevivo adormecida na saudade de uma paixão eternamente reprimida.

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