És extraordinariamente diferente do que eu sou: a tua
pele e olhos claros, os teus cabelos reluzentes, a tua barriga magra, os teus
ossos, os teus pés trabalhados pela Deusa da Dança, a tua maneira de andar
marcada pela cicatrizes internas de um passado interrompido, mas nunca
esquecido... És tudo aquilo com que eu sonho ser.
Acordas de manhã e, apesar de todas as doenças que
comem o teu corpo, sabes que podes ser feliz, podes dar sempre "um pezinho
de dança". A nossa doença, meu amor, une-nos pela graça da dança; mas na verdade,
tu bem sabes que a nossa doença é a nossa dança; criatura graciosa e divina que
te oferece tanta felicidade e razões para viver, mas que em mim só deixa
saudade e cólera, e lágrimas.
Danço por mim, para o meu espelho embaciado, e sabe
tão bem; mas não me consigo sentir completa, não me sinto realizada. Nunca me
sinto preenchida, tu, "a minha igual", e a dança levaram com vocês
dois pedaços de mim, que desconfio serem os pedaços que me mantinham viva e
desperta para o mundo.
Nada posso fazer. Agora sobrevivo adormecida na
saudade de uma paixão eternamente reprimida.

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