segunda-feira, 20 de dezembro de 2010




Volto à rua onde me cruzei contigo pela primeira vez. As casas estão repintadas, a calçada repleta de amargura, os candeeiros reacendem o arrependimento que há em mim. Foi na esquina desta rua que deixei a pedra de sofrimento que ocupava o seu lugar no meu coração, que me impedia de respirar e de descansar. Dobrei a esquina e reencontrei-a, como esta pedra haviam muitas outras que se estendiam pelo caminho. Continuei a reviver a rua da minha vida, dos meus sonhos e realidade. Ressinto a dor que experimentei já anteriormente, que não me deitou a baixo, mas que me obrigou a crescer, que me fez quem sou hoje e que me tornou numa mulher mais forte.
Cubro a cara com as cartas do passado que tanto levaram de mim e sem nada me deixaram. Caminho descalça, de cabelo solto e num vestido leve, com a bainha por fazer. Vem uma rajada de vento e com ele leva as cartas, as cartas do meu passado. 
Deixo que o vento me fale e me desvende a vida que levei, escuto a sua dor e concentro-me na minha. O vestido esvoaça ao sabor do vento, sinto-me como uma pena, mais pela dor, sofrimento, angustia e tormentos que saíram de mim do que pelo peso. Sinto-me bem, da maneira que devia sentir.

Vejo a minha vida dividida em fragmentos de passado, que só fazem sentido se os conjugar no mesmo pretérito imperfeito. Cada vez que volto à rua, algo muda, está-se a tornar cada vez mais numa rua forte, bonita, com mais capacidade para guardar momentos vividos cheios de emoções, que se entranham nas paredes, na calçada, nos candeeiros e canteiros que construí. Quero que o vento me leve a mim e me deixe consumir por um segundo, um segundo é quanto basta. Não sinto nada, simplesmente sou eu a abraçar o tempo que me fez crescer e que tanto me curou, como me aleijou. Sou eu a curar-me e a sorrir por isso. Porque a dor não tem que me deitar a baixo, mas sim ensinar-me a ser mais forte, um exemplo que se ergue sempre, porque não posso desvalorizar a vida. Antes de a viver, tenho que saber aproveitar o seu melhor. Vivo o abraço mais profundo, fico agarrada a ela para sempre, mas um segundo era suficiente.

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