Ligo a aparelhagem, a música começa
expandir-se pela sala. A melodia balança-me, mexo-me ao seu ritmo, lentamente.
Não penso em nada. A música e o meu corpo encontram-se, deixo-me conduzir e
confio, sei que é seguro. Sinto. Uma batida provoca um movimento em mim, que
rapidamente se transforma noutro, de repente crio um conjunto de movimentos que
me saem fluidamente do corpo, não sei como.
Sinto o meu corpo, a minha alma a
evaporarem-se, como se não fossem realmente meus. Sou livre, não vejo o tempo a
passar. O meu braço solta-se do meu corpo, e todos os movimentos saem atrás
dele. Não estou cansada, só quero continuar. Sinto-me bem, não estou a pensar.
A minha cabeça está vazia, o meu pensamento distante, deixo-me simplesmente
levar pelas variações da intensidade das batidas da música, faço exactamente o
que ela me manda, sei que é seguro.
Os músculos começam a tremer, a respiração
a ser ofegante, o coração a bater mais depressa… não vou aguentar a muito mais.
A música parou, o movimento sumiu. Olho pelo espelho, não estou sozinha, a
minha imagem está mesmo à minha frente, só sou capaz de ouvir o coração a
saltar-me do peito e a respiração a regularizar. Não sou assim todos os dias, sou
quando posso. É assim que me sinto bem, é assim que me apresento, é assim que
gosto de respirar… é a forma de como eu vejo o mundo. O dia acabou. Desligo a
aparelhagem, pego na sweatshirt, calço-me e saio pela porta. Hei-de voltar para
ser quem sou e fazer o que gosto, que posso nem saber fazê-lo, mas é como me
sinto bem, como gosto de me sentir a mim. Olho para trás e fico à espera de
voltar a esta sala, tenho saudades de ser eu. Só sou eu quando encontro o meu
movimento, que se descobre nas batidas de uma música, nesta sala.

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