terça-feira, 14 de dezembro de 2010


Ligo a aparelhagem, a música começa expandir-se pela sala. A melodia balança-me, mexo-me ao seu ritmo, lentamente. Não penso em nada. A música e o meu corpo encontram-se, deixo-me conduzir e confio, sei que é seguro. Sinto. Uma batida provoca um movimento em mim, que rapidamente se transforma noutro, de repente crio um conjunto de movimentos que me saem fluidamente do corpo, não sei como.
Sinto o meu corpo, a minha alma a evaporarem-se, como se não fossem realmente meus. Sou livre, não vejo o tempo a passar. O meu braço solta-se do meu corpo, e todos os movimentos saem atrás dele. Não estou cansada, só quero continuar. Sinto-me bem, não estou a pensar. A minha cabeça está vazia, o meu pensamento distante, deixo-me simplesmente levar pelas variações da intensidade das batidas da música, faço exactamente o que ela me manda, sei que é seguro.

Os músculos começam a tremer, a respiração a ser ofegante, o coração a bater mais depressa… não vou aguentar a muito mais. A música parou, o movimento sumiu. Olho pelo espelho, não estou sozinha, a minha imagem está mesmo à minha frente, só sou capaz de ouvir o coração a saltar-me do peito e a respiração a regularizar. Não sou assim todos os dias, sou quando posso. É assim que me sinto bem, é assim que me apresento, é assim que gosto de respirar… é a forma de como eu vejo o mundo. O dia acabou. Desligo a aparelhagem, pego na sweatshirt, calço-me e saio pela porta. Hei-de voltar para ser quem sou e fazer o que gosto, que posso nem saber fazê-lo, mas é como me sinto bem, como gosto de me sentir a mim. Olho para trás e fico à espera de voltar a esta sala, tenho saudades de ser eu. Só sou eu quando encontro o meu movimento, que se descobre nas batidas de uma música, nesta sala.


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