Olho pela janela. Consigo distinguir uma
imensa multidão que está à minha espera, tudo o resto me parece demasiado
desfocado. Tento ignorar. As lembranças e recordações a que estou presa, onde
estou enterrada e onde revejo o meu reflexo a afundar-me no
pensamento e nas memórias, obriga-me a ausentar e deixar a janela, faz-me
concentrar no que ainda não cicatrizou. Sem qualquer arrependimento.
Releio momentos e sonhos, repenso nas
palavras, reencontro novamente algo que pensava considerar passado, mas está
bem presente aqui, comigo. Está todos os dias a chamar por mim do outro
lado da janela, está lá tudo, tudo vivido. Não quero esquecer. Esquecer
parece-me completamente absurdo, não me arrependo, foi bom, fez-me crescer e
mostrou-me o meu sentido, o rumo da vida que eu estava a tomar. Faz parte
de mim, de quem sou e de quem não me posso esquecer ser já mais. Guardo os
melhores momentos da minha vida, quero tê-los para me erguerem um dia ou para
erguer alguém. Pensar em continuar, deixando tudo para trás e começar uma vida
nova não me parece certo, porque enquanto dura é bom, é saudável, é inesperado…
é lindo, momentos mais lindos de uma vida, da minha. Pego nos textos, nas
palavras, nos olhares, nos movimentos, nos sorrisos… na minha verdadeira vida e
ando, caminho no meu trilho. E hei-de chegar ao destino de bolsos cheios, pois
mais momentos me encontrarão e eu encontrarei a experiência, experiência
esta que tanto procuro, e que se encontra entre a multidão que me
olha pela janela do meu quarto (MUNDO).
Vejo-o. Está ali, mesmo aqui. Alcanço, falta tão pouco… um passo, talvez? Agarro-me com força e dou tudo o que tenho para me conseguir levar até ele. Dou o máximo, tudo o que há em mim. Deixo ali mesmo um pouco do que sou, talvez eu não seja o suficiente, mas vou manter-me agarrada, não me posso largar, não quero, eu sou forte, eu quero chegar lá. Agarra a minha mão e, quando eu menos esperar, puxa-me para junto de ti, porque a força não dura para sempre e eu posso estar prestes a cair.
Agarra a minha mão com a tua mão, segura-me
no teu regaço e diz-me que posso descansar, finalmente, posso descansar no teu
abrigo.
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