É nas tardes frias e húmidas dos Domingos de Inverno que gosto de sair do conforto do meu quarto e vaguear pela minha rua, sem destino.
Só eu estou na rua. Eu e a chuva, que
preenche o lugar das pessoas que por esta hora costumam estar confortavelmente
sentadas no seu sofá, em frente ao televisor, preguiçando. Os poucos que
deambulam pela rua, como se de máquinas se tratassem e estivessem já
programados para executar tão rotineiras caminhadas, não reparam sequer em quem
passa mesmo ao seu lado.
Sobressaio nesta rua que parece abandonada, entregue à
solidão e tristeza que a todos aprisiona mas eu gosto da chuva. Gosto do seu
som frágil e repetitivo quando embate na minha capa amarela, que deixa as gotas
deslizarem levemente sobre si até voltarem a tombar, desta vez no chão
lamacento e pedregoso. Gosto do cheiro que fica no ar após a chuva ter caído
sobre a terra. Cheiro fresco e tranquilizante, que reconforta o espírito e dá
ânimo para enfrentar mais uma semana que se aproxima.
Continuo a vaguear pela minha rua. É quando chove que
posso reparar em coisas novas, porque é na rua despida de movimento e agitação
que consigo sentir as coisas especiais, que no meu dia-a-dia não dou a devida
importância.
Hoje olhei para a minha rua de uma maneira diferente.
Hoje pude ver mais do que a minha rua, pude ver um sítio onde muitas marcas
foram já deixadas, onde muitas coisas já aconteceram. Tenho a certeza que esta
rua tem um livro cheio de segredos para um dia eu desvendar. Quero ler todas as
suas histórias e puder fazer parte delas.

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