A madeira fria e rugosa confronta o meu
corpo, que já sem forças para se proteger contra memórias tuas, demora-se uns
instantes, detém-se no frio e na solidão que tanto me confortam aqui, como um
dia também tu me confortaste.
Foram os teus olhos que se apaixonaram
pelos meus, foram as tuas mãos que balançaram pelo mundo em busca das minhas,
foste tu que me quiseste, que me procuraste, que me subjugaste e que me
tiveste. Foste um mundo para mim, o meu primeiro amor, o meu primeiro bem,
foste tu quem eu sempre quis e continuo-o a querer. Fora de mim julgas-te tão
baixo, mas tanto quiseste que te fartaste? Foi só um impulso? Dizê-lo-ia se te
arrependesses, se desistisses do presente e abrisses os braços ao passado que
um dia esqueceste quando me trocaste. Sim, fui trocada. Fui e sou o objecto que
nunca desejaste e que quando te lembraste deitaste fora. Não sou merecedora de
alguém como tu, não sou tão bonita como a tua primeira escolha eterna; não tão
bonita, tão alegre, tão magra, tão talentosa, tão sensível ou autêntica.
O rasto do teu perfume difunde-se agora
por toda a divisão. Ainda usas o mesmo perfume? O teu cheiro arrepia a minha
pele que tantas vezes sente a falta do teu carinhoso toque. Só tu sabias
apaziguar a minha alma, só tu saciavas a minha sede de viver, vontade que à
muito perdi. Já não sei se quero viver daqui para a frente. Não me parece que
uma vida sem ti ao meu lado seja uma vida que queira viver. Desculpa não ser
suficiente. Desculpa não conseguir fazer-te feliz. Desculpa não ser tão magra
ou bonita. Desculpa não ter um talento que me faça única. Espero que um dia me
possas desculpar, porque a pesar de tudo não te esqueci, estás trancado
na minha cabeça e afundado no meu coração.
Eu continuo-o aqui para ti. Respiro por
ti. Eu preciso de ti, se um dia precisares também tu de mim, sabes onde me
encontrar, porque por algum motivo, não te consigo tirar da minha vida meu
amor.
Foste, eternamente, o primeiro.

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